Há um detalhe que muda por completo uma viagem à Amazónia e que quase ninguém pesa na altura de marcar: o nível do rio. Entre o ponto mais alto e o mais baixo do ano, o Rio Negro sobe e desce cerca de dez metros à frente de Manaus. É esse ritmo, e não o calendário, que decide se vai remar entre as copas das árvores ou caminhar em praias de areia branca no meio da floresta. E depois há a cidade, que quase toda a gente atravessa a correr e que merece muito melhor. Este guia leva-o pelos dois lados.
Floresta alagada e canoa entre as árvores: abril a julho. Praias de rio, trilhos a pé e menos mosquitos: agosto a novembro. Manaus e o Encontro das Águas valem a visita todo o ano. O ideal são dois dias em Manaus mais três a quatro noites num lodge.

Entre 1880 e 1912 a Amazónia foi o maior produtor mundial de borracha, e o dinheiro do látex mandou construir uma Europa tropical no meio do nada. O ponto alto é o Teatro Amazonas. Veio mármore de Carrara, lustres de Murano, ferro forjado de Inglaterra e telhas de França, e a cúpula foi coberta com trinta e seis mil peças de cerâmica vindas da Alsácia. Faça a visita guiada e, se houver programa, veja um espetáculo: poucas salas no mundo fazem tremer os joelhos como esta.

À volta do teatro fica o Largo de São Sebastião, com casario colorido e calçada em ondas a preto e branco, onde se bebe um café e se vê a cidade passar. Na GaleriAmazônica encontra o trabalho de artesãos indígenas e ribeirinhos, e é dos poucos sítios onde comprar significa mesmo apoiar quem faz. Ao lado, a Galeria do Largo mostra artistas locais, e na Banca do Largo acontecem lançamentos de escritores como Ailton Krenak e Davi Kopenawa. Se lhe apertar a fome, o tacacá da Gisela é uma instituição de rua.

Desça depois até ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa, um pavilhão de ferro de inspiração art nouveau restaurado em 2013, onde se vende de pirarucu seco a poções que prometem curar tudo. Uma nota de rigor: é comum dizer-se que foi projetado por Gustave Eiffel, mas essa atribuição é uma lenda contestada, por isso não a repetimos. Ao lado, a Feira Manaus Moderna mostra a variedade absurda de peixes amazónicos, e aos domingos a feira de artesanato da Avenida Eduardo Ribeiro ocupa o centro. Para museus, o Museu da Cidade de Manaus ocupa um palacete neoclássico na Praça Dom Pedro II, o Museu da Amazónia espalha-se por cem hectares da Reserva Adolpho Ducke, com trilhos e uma torre de 42 metros que sobe acima das copas, e o Museu do Seringal Vila Paraíso, acessível de barco, recria a vida dos seringais.

Esta é a razão menos falada para vir a Manaus e talvez a melhor de todas. Prove o tambaqui na brasa e o pirarucu, um peixe de água doce que chega aos dois metros. Descubra o tucupi, o caldo amarelo que se extrai da mandioca, e o jambu, a folha que adormece a boca e apanha todos os estreantes de surpresa. Deixe espaço para o cupuaçu, o cubiu e o açaí a sério, servido salgado e sem xaropes, como manda a terra. Ao pequeno-almoço, peça um x-caboquinho, com banana, queijo coalho e lascas de tucumã.
Onde reservar, sem rodeios:
Ficar no centro histórico resolve os dois dias de cidade com tudo a pé. O Juma Ópera é vizinho do Teatro Amazonas e mantém a estrutura original do casarão onde está instalado, com gradis de ferro e janelas em arco. Tem a piscina mais desejada da cidade no terraço, virada ao teatro, e o pequeno-almoço serve-se sob uma cúpula de vidro art nouveau. Dentro do Villa Amazônia fica o restaurante Fitz Carraldo, que junta cozinha local a técnica internacional. A Casa dos Frades ocupa a antiga residência dos frades capuchinhos, no meio dos pontos turísticos, e o Blue Tree Premium, a 25 minutos do aeroporto, é a escolha prática de quem quer conforto e piscina sem complicações. Dizemos-lhe qual encaixa melhor no seu roteiro e tratamos da reserva.
A Amazónia não tem verão e inverno como os conhecemos. Tem cheia e vazante. As chuvas caem sobretudo entre dezembro e maio, mas a água que corre das cabeceiras leva semanas a chegar a Manaus, e por isso o rio continua a subir mesmo depois de a chuva abrandar. O pico da cheia acontece normalmente em junho e o nível mais baixo em outubro. É esta maré de água doce, lenta e certa, que comanda a vida de quem ali vive e tudo aquilo que o visitante pode fazer.
Cheia, de abril a julho: a água entra pela mata e cria os igapós. O que era chão passa a ser um labirinto de canais onde se rema por entre troncos e copas, muitas vezes a poucos metros das aves e dos macacos. É a época mais cénica e a mais generosa para quem anda de barco. Em troca, quase não há praias e os trilhos a pé ficam reduzidos ao mínimo.
Vazante e seca, de agosto a novembro: a água recua e devolve a terra. Surgem praias de areia branca, abrem-se trilhos e a fauna concentra-se nos lagos que sobram, o que torna os avistamentos bem mais fáceis. É a altura com menos chuva e menos mosquitos, e a que recomendamos a quem vai pela primeira vez ou viaja com crianças. O reverso é o calor, mais intenso.
Enviamos-lhe por email a versão completa, para levar no telemóvel ou imprimir, com três extras que não estão nesta página: a checklist de preparação, o calendário das épocas para imprimir e os contactos diretos da nossa equipa.
É gratuito. Enviamos o guia e, de vez em quando, boas viagens. Cancela quando quiser.Mesmo que não vá dormir à floresta, há um dia obrigatório no rio. O Encontro das Águas é o postal: o Rio Negro, escuro como chá, corre lado a lado com o Solimões, barrento e mais frio, sem que as duas águas se misturem, ao longo de vários quilómetros. A diferença de temperatura, densidade e velocidade explica o fenómeno, e a fronteira é tão nítida que parece pintada. O mesmo passeio costuma incluir os botos cor-de-rosa, uma comunidade ribeirinha e as vitórias-régias do Parque Ecológico Janauari, aquelas folhas gigantes que aguentam o peso de uma criança. Na vazante, junte-se as praias fluviais: a Ponta Negra, dentro da cidade, a Praia da Lua, do outro lado do igarapé Tarumã-Açu, e a do Tupé.
Há uma diferença grande entre ver a Amazónia e estar na Amazónia. A duzentos quilómetros de Manaus, cerca de três horas por estrada asfaltada, fica Novo Airão, uma vila de vinte mil habitantes à beira do Rio Negro e porta de entrada do Parque Nacional de Anavilhanas. Dorme-se lá dentro, acorda-se com o barulho da mata e sai-se de barco ao nascer do dia, que é quando a floresta acontece.
Anavilhanas é o segundo maior arquipélago fluvial do mundo: centenas de ilhas e dezenas de lagos ao longo de mais de noventa quilómetros. Na cheia, as ilhas ficam submersas e navega-se por dentro das copas. Na vazante, emergem praias de areia branquíssima que contrastam com a água quase preta. É o mesmo lugar e são duas paisagens completamente diferentes, o que explica porque tanta gente volta na época contrária. Mais para o interior fica o Parque Nacional do Jaú, uma das maiores áreas contínuas de floresta protegida do planeta, classificada Património Mundial pela UNESCO, que exige expedição de vários dias de barco.
Os dias fazem-se de trilhos com guias que cresceram na mata, de canoa pelos igapós, de banhos no Rio Negro ao fim da tarde e de focagem noturna, quando se sai de lanterna à procura do brilho dos olhos dos jacarés na margem. E há um detalhe que costuma surpreender: o Rio Negro tem muito menos mosquitos do que a fama da Amazónia faz supor, porque a água escura e ácida é um mau berçário para as larvas. As noites aqui são bem mais tranquilas do que nos rios barrentos.
Nos lodges, os dois nomes de referência são o Mirante do Gavião, distribuído por edifícios e passarelas que pairam sobre a mata, com vista para o rio, uma pequena praia e restaurante assinado pela chef Debora Shornik, a mesma do Caxiri, e o Anavilhanas Jungle Lodge, com chalés e bangalôs cercados pela floresta e piscina de borda infinita. Para orçamentos mais contidos há pousadas simples na vila, como a Bela Vista, de frente para o rio, com redário e caiaques. Para comer, o Flor do Luar flutua sobre o Rio Negro e serve tambaqui de banda grelhado com direito a mergulho a partir do deck. E se quiser levar alguma coisa que valha a pena, a Fundação Almerinda Malaquias dá formação ambiental a crianças e jovens e produz marchetaria em madeira de grande qualidade. Comprar ali é das poucas formas de garantir que o dinheiro fica na comunidade.
A duas horas de Manaus por estrada asfaltada fica um mundo de quedas de água, lagoas de um verde-jade improvável, grutas e cavernas. As atrações ficam em propriedades privadas, com taxa de entrada, restaurante e trilhos sinalizados, e alugar carro é a forma mais prática de organizar o dia. Aqui a época não segue o nível do rio, segue a chuva: no primeiro semestre as cachoeiras levam muito mais água, e o banho pode até ser perigoso, enquanto as piscinas naturais desaparecem. No segundo semestre as quedas suavizam, as piscinas afloram e os trilhos secam.
Depende do que quiser fazer. De abril a julho a floresta está alagada e navega-se de canoa por entre as árvores. De agosto a novembro a água baixa, surgem praias de areia, abrem-se os trilhos e há menos mosquitos. Manaus e o Encontro das Águas visitam-se bem em qualquer mês.
Valem as duas coisas. Aconselhamos dois dias em Manaus, pelo Teatro Amazonas, pelo mercado e pela gastronomia, e depois três a quatro noites num lodge dentro da floresta. A cidade explica a história, a floresta dá a experiência.
Menos do que imagina, se ficar no Rio Negro. A água escura e ácida é um mau ambiente para as larvas de mosquito, por isso a zona de Novo Airão e Anavilhanas é bastante mais tranquila do que os rios de água barrenta. Ainda assim, leve repelente e roupa de manga comprida para o fim da tarde.
Chove sobretudo entre dezembro e maio, quase sempre em aguaceiros fortes e curtos, muitas vezes ao fim da tarde. Raramente compromete o programa do dia. Agosto é o mês mais seco do ano.
A vacina contra a febre amarela é fortemente recomendada para a região amazónica e deve ser administrada cerca de dez dias antes da partida. Aconselhamos uma consulta do viajante e confirmamos consigo os requisitos em vigor à data da sua viagem.
Dá, e funciona muito bem na vazante, entre agosto e novembro, quando há praias de rio, menos chuva e menos mosquitos. Escolhemos um lodge com estrutura adequada e ajustamos o ritmo dos passeios.
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